Buscar

Banco Central reduz juros para 6,5%, menor taxa da história


Copom indicou que deve fazer novo corte de 0,25 ponto percentual

BRASÍLIA — Com a inflação bem mais baixa que o esperado, o Banco Central cortou pela 12ª vez consecutiva os juros básicos da economia, que passaram de 6,75% ao ano para 6,5% ao ano. É o menor patamar da Selic na História e o Comitê de Política Monetária (Copom) avisou que pode não parar por aí. Indicou que deve fazer mais um corte de 0,25 ponto percentual e só depois encerrar o processo de queda. A sinalização surpreendeu analistas ouvidos pelo GLOBO. A avaliação é que os juros de equilíbrio da economia podem ser mais baixos que o estimado pelo mercado financeiro por causa da mudança na política econômica.

“Para a próxima reunião, o comitê vê, neste momento, como apropriada uma flexibilização monetária moderada adicional. O comitê julga que este estímulo adicional mitiga o risco de postergação da convergência da inflação rumo às metas. Essa visão para a próxima reunião pode se alterar e levar à interrupção do processo de flexibilização monetária, no caso dessa mitigação se mostrar desnecessária”, disse o Copom, em comunicado, que complementou:

“Para reuniões além da próxima, salvo mudanças adicionais relevantes no cenário básico e no balanço de riscos para a inflação, o comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”.

A decisão unânime pegou a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, de surpresa, apesar de ela ressaltar que era o que faria se fosse da diretoria do Copom. Ele argumenta que os juros neutros – o patamar da taxa básica que não incentiva e nem controla a inflação _ podem ter caído mais do que os analistas calcularam por causa dos efeitos da troca da política econômica após o impeachment. Por isso, enxerga espaço para uma queda maior dos juros do que a anunciada pelo BC.

— Pode furar os 6% ao ano.

Um dos motivos seria a recuperação ainda fraca da economia. Segundo o BC, a atividade teve uma queda de 0,59% em janeiro. No entanto, no comunicado do Copom, o Banco Central afirmou que a atividade mostra recuperação consistente e que o cenário externo tem se mostrado favorável por causa do crescimento global. Isso tem contribuído até o momento para manter o apetite ao risco em relação a economias emergentes. A decisão foi tomada poucas horas depois de o Federal Reserve (Fed, o BC americano anunciar que começou a subir os juros.

No Twitter, o presidente Michel Temer se autoelogiou. Disse que sua política econômica alcança resultados históricos.

"A minha política econômica está fazendo história. A taxa básica de juros, a Selic, é a menor já registrada, 6,5%, conforme decisão do Copom, hoje. E graças à inflação que continua baixando. O resultado é mais investimentos das empresas, mais empregos e maior consumo das famílias", escreveu o presidente.

No comunicado divulgado após a reunião, o Banco Central justifica o corte. Diz que a inflação evoluiu de uma forma mais benigna que o esperado desde o início de ano. Ressaltou que até mesmo os itens mais sensíveis aos juros vão melhor que o esperado.

Nas contas do BC, a previsão para a inflação deste ano é de 3,8% e de 4,1% para 2019. Isso leva em conta a previsão dos analistas do mercado financeiro para os juros básicos que eram de 6,5% ao ano neste ano e de 8% em 2019. No entanto, como o BC já avisou que pode cortar mais, a projeção para a inflação pode subir e ficar mais próximas da metas de 4,5% neste ano e de 4,25% no ano que vem. Essa é a expectativa do Copom.

Como de costume, o Copom listou as dúvidas que enxerga. No quesito "risco do bem", está a possibilidade de a inflação pode ficar ainda mais baixa se houver uma possível propagação do nível baixo de inflação, o que os economistas chamam de inércia inflacionária.

André Perfeito, economista-chefe da corretora Gradual, explica que o setor de serviços é um exemplo de onde os preços mais baixos são repassados rapidamente em promoções ou até mesmo renegociações de alugueis. Apesar da fragilidade, ele não aposta numa queda maior que 6,25% ao ano.

— A discussão é se vale a pena cortar muito para subir depois — ressaltou.

Por outro lado, a frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas pode afetar prêmios de risco e fazer com que o Brasil fique mais caro. O perigo se intensifica no caso de reversão do cenário externo favorável para os emergentes.

“O comitê enfatiza que o processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira contribui para a queda da sua taxa de juros estrutural. As estimativas dessa taxa serão continuamente reavaliadas pelo Comitê”.

— Sem reformas, a gente não consegue segurar os juros baixos. A gente tem um problema fiscal grande para resolver — argumentou Renato Mobile, economista-chefe da Bulmark Financial Group.

Há um mês e meio, quando o Banco Central tinha cortado a última vez avisou que pararia por ali. No entanto, a inflação continuou em queda numa velocidade maior que o previsto.

Nos últimos 12 meses, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em 2,84%: abaixo do piso da meta para o ano. O BC tem de entregar a inflação em 4,5% em 2018, mas tem um limite de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo para acomodar choques que aumentam ou diminuem demais os preços.

Foi o que aconteceu no ano passado, quando houve uma super safra que derrubou os preços dos alimentos. Por isso, a inflação oficial ficou abaixo da meta, em 2,95%.

Ao ver que a inflação continuava em queda, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, deu uma sinalização para mudar o rumo das expectativas. Numa entrevista, ele deixou claro que o sinal dado na última reunião do Copom não valia mais ao dizer que as últimas taxas de inflação que vieram, de fato, vieram mais baixas do que o esperado pelo BC e que isso surpreendeu a todo mundo até mesmo o Banco Central.

Fonte: O Globo


0 visualização
Siga
  • Instagram
  • Facebook Social Icon
  • LinkedIn Social Icon
  • YouTube Social  Icon
Recentes