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Banco Central mantém taxa Selic em 6,5% ao ano


Autoridade resistiu à pressão do mercado financeiro para aumentar juros

BRASÍLIA — Apesar da pressão do mercado financeiro para aumentar os juros básicos, o Banco Central (BC) manteve, por unanimidade, a Taxa Selic em 6,5% ao ano. Após o acirramento da turbulência internacional, havia a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pudesse subir os juros para conter a disparada do dólar. A autoridade monetária, no entanto, frisou que sua decisão foi focada apenas na inflação, atualmente em 2,68%, bem abaixo da meta oficial do governo, em um cenário de atividade econômica fraca. O BC não se comprometeu com os próximos passos. Ainda não tem dimensão do impacto da greve dos caminhoneiros na economia, mas espera mais inflação e retomada mais lenta do crescimento. Pelo comunicado, analistas veem pouca chance de alta da taxa básica antes das eleições de outubro. Há até quem só espere um movimento em 2019.


A paralisação no setor de transporte de cargas no mês de maio dificulta a leitura da evolução recente da atividade econômica. Dados referentes ao mês de abril sugerem atividade mais consistente que nos meses anteriores. Entretanto, indicadores referentes a maio e, possivelmente, junho deverão refletir os efeitos da referida paralisação”, afirmou o BC em comunicado divulgado após a reunião. “O cenário básico contempla continuidade do processo de recuperação da economia brasileira, em ritmo mais gradual”.


Para o BC, o repique da inflação por causa da crise dos caminhoneiros deve ser significativo, mas temporário. A autarquia estima inflação de 4,2% no fim deste ano, acima das projeções do mercado, de 3,88%. A meta para 2018 é de 4,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. Para 2019, o BC espera 3,7%, contra 4,1% do mercado. Mas a meta é um pouco menor: 4,25%.


Entre os riscos listados pelo Copom para o não cumprimento da meta estão a possibilidade de os preços continuarem baixos, a continuidade da turbulência internacional e a suspensão das reformas. No comunicado, o BC ressalta que as reformas são essenciais “para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia.”


O Copom reafirmou que não recorrerá a juros altos para conter a disparada do dólar. Deve atuar apenas para evitar que uma alta generalizada se propague por toda a economia.


A valorização da moeda americana era um dos fatores que levaram o mercado a cogitar a possibilidade de um aumento nos juros. Mas, há cerca de duas semanas, quando o dólar atingiu R$ 3,925, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, convocou uma entrevista coletiva, na qual afirmou que, diferentemente de países que foram alvo de ataques especulativos, como Turquia e Argentina, não usaria os juros para controlar o câmbio.


Em razão das críticas no mês passado, quando manteve a Selic após ter sinalizado que cortaria os juros, o BC adotou uma linguagem cautelosa em suas projeções. “Na avaliação do Copom, a evolução do cenário básico e do balanço de riscos prescreve manutenção da Taxa Selic no nível vigente. O Copom ressalta que os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação.”


A indicação frustrada em maio contribuiu para o desequilíbrio no mercado, já afetado pelo cenário internacional. Os juros futuros saltaram e houve pressão para que o BC elevasse a taxa.


A menção, no comunicado, da greve dos caminhoneiros foi considerada positiva por analistas.


— Na reunião anterior, o BC deu muita ênfase ao cenário externo. Agora, está ponderando que tem uma situação doméstica e que está de olho nisso, ou seja, não está preocupado somente com o câmbio, mas com um conjunto de fatores — explica o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.


Analistas começam a afastar a possibilidade de alta dos juros antes das eleições. Para Neil Shearing, economista-chefe para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, o fato de o BC mostrar que os efeitos da crise pesam mais que o câmbio respalda essa projeção. Em nota, ele afirma que a alta do dólar pode até levar a um aumento da Selic nos próximos meses, mas ressalta que o arsenal do BC para lidar com isso é grande. E diz acreditar que o Copom deve esperar até depois das eleições de outubro para começar a subir os juros.


ELEIÇÕES PODEM INFLUENCIAR COPOM


O analista-chefe da Rico Investimentos, Roberto Indech, no entanto, ressalta que os cenários doméstico e internacional são muito complexos. Por isso, diz, as decisões sobre a Selic serão tomadas na véspera das reuniões do Copom.


- Vivemos um momento complexo, com incerteza eleitoral, preocupação fiscal, expectativa das decisões da Justiça sobre a situação do ex-presidente Lula, atividade econômica prejudicada pela greve dos caminhoneiros, além das tensões entre EUA e China. Portanto, o Copom só terá condições de avaliar se mantém ou não os juros na véspera de cada reunião - diz Indech, que, devido às eleições, não descarta alta de juros ainda este ano.


A Selic a 6,5% mantém o Brasil na 7ª posição dos maiores juros reais do mundo, segundo ranking elaborado pelo site MoneYou, em parceria com a Infinity Asset Management. O juro real brasileiro é de 2,91%, abaixo de Indonésia, Índia, México, Rússia e Turquia. A lista é encabeçada pela Argentina, que elevou sua taxa básica para 40%, e tem juro real de 23,89%.


Entidades ligadas à indústria e ao comércio consideraram acertada a manutenção da Selic em seu mínimo histórico, devido à queda nas projeções para o crescimento da economia. Alencar Burti, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), vê a taxa nesse patamar até o fim do ano. Já para os sindicatos, a Selic continua alta. Miguel Torres, presidente interino da Força Sindical, disse que isso inibe os investimentos e a criação de empregos.


Fonte: O Globo


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